Fantasminhas nos bastidores
Vcs conhecem aquelas pessoas que carregam as caixas de som em um show, arrumam os cabos, checam os palcos, cuidam dos detalhes técnicos, etc?
Eles não são famosos, por isso não nos lembramos deles.
Sabe aquela senhorinha que varre a igreja? Ou aquela que sempre puxa o terço?
Elas não são famosas, por isso não nos lembramos delas.
Em 1994 quando fiz meu 1 encontro de jovens com Cristo lembro que todos nós quase brigávamos para ser apresentadores ou “boa-vontade” (esses ficavam dentro da sala de palestras levando água para os participantes).
Mas o engraçado é que não lembro de ter visto alguma vez alguém brigando para ser “fantasminha” (equipe de limpeza). E vejam como é interessante: o nome fantasminha é justamente para isso, para não ser visto.
E hoje em dia temos feito isso: colocamos pessoas no anonimato; deixamos como fantasminhas os que queremos, porque o que importa para nós são os pregadores, o ministério de música e os coordenadores.
Os intercessores também não são muito lembrados… e olha que começaram seu trabalho antes dos outros, orando a Deus para que tudo desse certo. E nos esquecemos que muitas vezes eles estão face a face com Jesus (embora exista briga também nesse ministério para ver que em vai entrar junto com o Santíssimo - e isso é lamentável… peço a Deus que sejam simples de coração e que tenham o desejo de ver Jesus aparecendo).
Mas o fato é, que nos lembramos dos intercessores que também têm o ministério de oração por cura e libertação. Desses nós lembramos… será que é porque nos interessa?
No ministério de música damos valor para a voz mais bonita e que se destaca. Damos valor para o solo da guitarra ou para uma virada fantástica do baterista. Aqueles que fazem o backing vocal nós deixamos praticamente escondidos. Os técnicos de som, câmeras, iluminação não interessa, aliás não lembramos deles. São fantasminhas para nós…
Não lembro de ter visto em um retiro ou congresso de ter chamado esses irmãos da limpeza, da cozinha, lá para o palco, para rezarmos por eles.
Até rezamos pelo almoço, mas nem sempre pelos cozinheiros, que doaram seu tempo por nós. Nem nos preocupamos em deixar uma caixa de som perto deles, para que possam ouvir também as pregacões.
É preciso lembrar que o técnico de som tem família, tem filhos, tem suas dificuldades do dia-a-dia. Rezemos por eles também.
Às vezes fazemos isso em nosso grupo de oração: precisamos do trabalho deles, mas não deles.
Nos lembramos de comprar lembrancinhas para os pregadores e até oferecemos carona para levá-los em casa. No entanto, há pessoas que participam há tanto tempo no grupo e não sabemos nem o nome, onde moram, quando fazem aniversário.
Quem sabe até, pegam mais de uma condução para ir para casa.
Minha esposa quando começou no grupo de oração dizia que não sabia se seria útil, pois não sabia fazer nada… não tinha ministério… estava no anonimato…
E vejo hoje quantas maravilhas Deus fez em sua vida. Tudo por causa do seu sim.
Hoje até formação para intercessores ela dá. Prega em mais lugares que eu e nem por isso deixou de reconhecer sua pequenez, pois ela sabe de onde veio. Continua fazendo seus trabalhos simples e de tão grande valor em nosso grupo. Nunca se importou em limpar a igreja ou em puxar um terço, porque ela sabe muito bem que esse é um trabalho para poucos, para os gigantes da fé, que continuam trabalhando, se doando pelo reino, mesmo quando há tantas pedras no caminho.
E o que mais me apaixona não é ver aquilo que ela faz hoje, mas saber da sua história: de onde ela veio, das coisas que passou em sua infância e em sua família. Gosto de ouvir e sempre fico atento quando descubro que passou por tantas dificuldades e hoje está aí, firme na fé.
Linda como mulher, como amiga, como esposa e que já está sendo linda como mãe.
Jesus buscou e ensinou o anonimato sim, mas acho que não aprendemos bem a lição.
Nós não temos o direito de fazer aparecer aqueles que queremos. Isso que em faz é a mídia e deveríamos estar cansados disso.
Essa não é a promoção humana que tanto a RCC prega.
Como disse o padre Fabio de Melo, há pessoas que nunca serão um sucesso, nunca serão lembradas, e no entanto, têm uma história de vida lindas, marcadas por momentos de dor e conquistas.
Que Deus nos ajude a nunca esquecer das pessoas. Quanta gente faz parte da nossa vida no dia-a-dia e também na Igreja. Não podemos e não queiramos lembrar apenas dos mesmos.
Faça a experiência à partir de hoje de chamar pelo nome aqueles que havíamos colocado o crachá de fantasminhas. Tenha a coragem de perguntar o nome das pessoas, de saber onde moram e de conhecer um pouco mais de suas vidas.
Falando disso agora, lembrei-me da Natalice, que trabalha comigo. Ela é responsável pela limpeza do escritório onde trabalho e uma vez perguntei se o seu nome tinha a ver com o Natal. Ela disse que sim, pois nasceu nessa época, e ficou toda feliz por ver alguém puxar papo, e mais ainda: por alguém se interessar por sua história.
Apaixone-se pela história das pessoas e não por aquilo que elas simplesmente fazem, pois assim corremos o risco de valorizar apenas alguns. Corremos o risco de não lembrar daqueles que estão nos bastidores dando o seu sangue.
Talvez eu tenha falado demais, né? Que Deus me conceda a graça de viver tudo isso. E que Ele conceda tudo isso à você também.
Deus abençoe.
Jorge